Entre os apaixonados por ônibus e transporte coletivo, existem veículos que se destacam não apenas pelo design ou tecnologia, mas por histórias únicas de improviso, superação e criatividade. É o caso do lendário carro 134 da Viação Ter Camaquã (VTC), apelidado de “Torineza” — um ônibus que virou símbolo de engenhosidade e resistência no cenário rodoviário de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Quando a necessidade encontra a criatividade
A origem dessa curiosa lenda remonta aos anos 1980, quando a empresa VTC operava com uma frota composta por modelos variados, incluindo o Marcopolo Torino 1983, um dos mais populares do transporte urbano brasileiro à época. Um desses Torinos acabou sendo danificado por um incêndio, o que normalmente significaria sua baixa definitiva da frota.
Mas a VTC optou por uma solução ousada: reconstruir o veículo utilizando peças de outro ônibus que estava fora de operação — um Marcopolo Veneza, conhecido por suas linhas retas, amplas janelas e presença marcante nos anos 1970 e 1980. Com as laterais reaproveitadas do Veneza, a frente e a traseira do Torino 83 e faróis do caminhão Mercedes-Benz LN, nasceu uma verdadeira mistura de estilos, batizada informalmente como “Torineza”.
O apelido foi criado pelos busólogos, que uniram os nomes dos dois modelos que deram origem à carcaça híbrida: Torino + Veneza = Torineza.
Um elo entre gerações Marcopolo
Curiosamente, muitos entusiastas afirmam que o Marcopolo Veneza foi o “pai” do Torino, enquanto o San Remo, também da Marcopolo, seria a “mãe” do projeto. O Torino herdou traços estruturais e conceituais desses dois modelos que marcaram época, tornando o Torineza ainda mais simbólico ao carregar, literalmente, partes dos antecessores diretos da linha Torino.
Um exemplar único: funcional, resistente e inesquecível
Mesmo com sua aparência incomum, o veículo não só voltou à ativa como cumpriu uma longa trajetória. Era comum vê-lo em operação em linhas como a tradicional Cascata/Voluntários, enfrentando subidas, descidas e o tráfego intenso da capital gaúcha. Sua estrutura inusitada chamava a atenção de quem entendia de carrocerias — e até de quem não entendia.
Ao longo de sua vida útil, o Torineza chegou a receber a pintura "Vida Nova" (Eletro), padrão que buscava modernizar visualmente a frota. Foi mais um esforço para mantê-lo visualmente alinhado com os tempos, apesar de sua estrutura singular. O carro rodou até 1998, marcando presença nas ruas por mais de uma década após o incêndio que quase o aposentou prematuramente.
Um símbolo de uma era
A história do Torineza é um retrato fiel de uma época em que as empresas precisavam se virar com o que tinham. A manutenção da frota era desafiadora, e reaproveitar peças de outros modelos não era apenas comum — era uma necessidade. Mais do que um ônibus, o Torineza se tornou ícone da resistência operacional e criatividade das oficinas do transporte coletivo do sul do Brasil.
Hoje, ele é lembrado com carinho pelos entusiastas da busologia, aparecendo em fotos históricas e sendo tema de discussões em grupos especializados nas redes sociais.
Ficha Técnica do “Torineza” – Carro 134 da VTC
• Prefixo: 134
• Placa: AR-0844
• Modelo original: Marcopolo Torino 1983
• Laterais: Adaptadas de um Marcopolo Veneza
• Frente e traseira: Torino 83
• Faróis: Mercedes-Benz LN
• Empresa: Viação Ter Camaquã (VTC)
• Cidade: Porto Alegre/RS
• Linha mais conhecida: Cascata/Voluntários
• Período de operação: até 1998
• Pinturas recebidas: Original da VTC e posteriormente a “Vida Nova” (Eletro)
Curiosidades e Legado
Muitos passageiros nem imaginavam que estavam embarcando em um ônibus “remendado” — sinal da competência da equipe de manutenção.
O veículo ficou famoso entre os busólogos justamente por sua aparência única e história singular.
Hoje, é lembrado como um dos poucos exemplos de reconstrução híbrida entre dois ícones da Marcopolo.
Créditos:
• Foto: Vladimir Monteiro
• Informações e memória: Luis Otávio Anchieta (DeltaBus – in memoriam)
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